quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Quanto custa o sorriso de uma criança?


E então: quanto custa o sorriso de uma criança. Sei lá quanto custa isso! Mas, no caso em questão, custou R$ 1,38. Isso mesmo, paguei hoje a bagatela de 1,38 pelo sorriso de uma criança. E, que lindo o sorriso dela!
A coisa se deu mais ou menos assim: eu estava passando minha compra pelo caixa, ao mesmo tempo em que, acompanhava o que acontecia no caixa vizinho, onde um menino pegava um Batom (chocolate) que estava colocado estrategicamente bem nas fuças dele, e alcançava pra mãe, que colocava as compras sobre o balcão. Em resposta, ela dava um tapa na mão do garoto e devolvia o chocolate à prateleira. O menino repetia o gesto dele e a mãe, o dela.
Eu, que já tinha até quitado minha conta, peguei dois chocolatinhos que paguei com duas moedas, e falei pra operadora dar ao garoto. O sorriso que ele abriu diante do docinho foi uma coisa formidável.
Pensando bem, não importa quanto custa fazer sorrir uma criança, porque o sorriso de uma criança não tem preço!


domingo, 2 de agosto de 2015

A malandragem que campeia à solta


Quando entrei no banco para fazer um depósito em pagamento a um serviço, ele estava na porta. Quando saí, ele continuava lá, apoiado sobre as muletas com seu ar desconsolado. Percebi que as pessoas passavam por ele indiferentes ou lançavam-lhe um olhar de enfado. Pensei comigo que aquele homem velho deveria estar em sua casa amparado pela previdência e não ali, na porta do banco, mendigando. Cheguei perto dele e perguntei de sua aposentadoria e ele me respondeu que estava aguardando a liberação. Estendi-lhe um trocado e segui em frente.
Cerca de 10 minutos depois, na porta dos Correios, uma mulher pedia dinheiro, não com a boca, com os dedos apontados, enquanto emitia um som estranho, como quem não consegue falar.
E logo, uma outra situação: sentado numa cadeira alta sobre o canteiro da praça, o malandro chamava a atenção das pessoas, com seu discurso: “ei, meu rei, ei minha rainha! Paga um café aí, dá um troco aí!”. – Cínica essa majestade, pensei.
Não precisei de mais do que meia hora e nem de andar dois quarteirões para ver essas cenas e, de volta para pegar o carro, comentei o fato com o dono do estacionamento, que riu, e me perguntou:
– E a mulher das receitas, que pede dinheiro pra comprar remédio, não encontrou com ela, não? E nem com a moça bem vestida que perdeu a bolsa e não tem como voltar pra casa?
E, então, eu entendi a indiferença das pessoas com o velho do banco, que é, na verdade, como os demais, um velho conhecido da gente que circula todos os dias por ali.
A propósito, ele é perfeitamente normal e a muleta é só um enfeite. Um enfeite que enfeita a cena e funciona, pelo menos para os que passam por ali a primeira vez.


terça-feira, 26 de maio de 2015

Uma paixão e tanto


Eu tenho um amigo que toda vez que ficava um tempo sem notícias minhas, me mandava uma mensagem bem objetiva: “Morreu, Lô?”.
Pois, agora, foi ele quem sumiu do mapa. Sumiu do Facebook, do Whatsapp, do Google... E eu devolvi a pergunta: “Morreu?”.
Não tardou para ele responder. Não morreu, não, o danado. Está vivinho da silva: “Arrumei uma namorada, Lô, e não tenho mais tempo para nada”.
Ainda não conheço todos os detalhes desse romance, mas o pouco que sei já faz dele uma história e tanto: trata-se de um reencontro após 34 anos. Ele está viúvo, ela, divorciada.
Em seu casamento anterior, ele foi muito feliz com sua Amélia. Sim, ela era literalmente uma Amélia, no jeito e também no nome. O mesmo não ocorreu com a namorada, que viveu um relacionamento infeliz do qual somente agora conseguiu se libertar.
Filhos criados, três ou quatro netos, ele – ela não sei – ainda está em atividade como professor, porém sem poupar tempo para se dedicar a esse romance que lhe faz reviver os amores e os ardores da adolescência. Reconhecendo-se apaixonado, ele está tratando de aproveitar essa paixão até a última gota. Por isso, outras atividades foram para o final da fila. As mídias sociais, por exemplo, que ele não tem mais tempo de atualizar. O que merece a minha admiração, numa época em que muitos estão tão preocupados em mostrar para os outros os registros de sua vida amorosa que se esquecem de viver sua própria felicidade.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Vaidade precoce


Dia desses a filha de uma amiga minha, prestes a completar seis anos de idade, me pediu uma boneca de presente. Quase enfartei! Que menina com mais de quatro anos quer ganhar uma boneca? Ainda dentro das fraldas, as meninas já estão desejando celular, tablet, câmera, filmadora, sapato de salto, maquiagem, roupa da moda e, entre outras coisinhas, jogos de computador, principalmente os que envolvem moda, maquiagem e dicas de beleza.
Tanto que encontrei na Internet alguns vídeos em que garotinhas de 6, de 7, de 8 anos ensinam outras garotinhas a se maquiarem, usando inclusive base e rímel, que eu pensava que fossem de uso exclusivo de gente adulta. E elas não fazem isso para ir a uma festa, para participar de um espetáculo ou para um evento de gala, mas principalmente para ir à escola.
Para essas meninas, fazer maquiagem não é uma brincadeira de criança. É a satisfação de uma vaidade a meu ver extremamente precoce. Que começa dentro de casa, sob aplausos e incentivo das próprias mães, orgulhosas da prematuridade de suas “mocinhas”. Com esse aval, as “mocinhas” estão indo muito mais além: marcam hora no salão, esticam os cachinhos com escova progressiva, fazem as unhas e – pasme – depilam as pernas.
Ao contrário dessas mães “antenadas”, não acho isso uma gracinha e não me incomodo nem um pouco de passar por quadrada, por careta ou por qualquer coisa que seja. O fato é que acho um absurdo esse estímulo à erotização infantil, que coloca em risco, inclusive, a vida das próprias garotas, vítimas frequentes de gravidez na adolescência, de distúrbios alimentares como bulimia e anorexia, e de cirurgias plásticas em corpos ainda em desenvolvimento.
Ouvi de um psicólogo que pular a infância é o mesmo que querer ler antes de começar a falar. E a infância é uma fase em que as crianças deveriam estar preocupadas em brincar, de boneca, de bola, de pular corda, de pega-pega, de qualquer coisa, e não em seguir os padrões da moda e se tornar adulta antes da hora. Mesmo que a mídia teime em vender sexualidade 24 horas por dia. E cabe principalmente aos pais impedir que essa ousadia invada sua casa.
Quanto à garotinha lá do início, a filha da minha amiga, quer saber se atendi o desejo dela? É claro que sim. Comprei uma boneca lindona, ao estilo do que ela havia pedido. Só que quatro ou cinco dias depois, ela se saiu com essa: “e um tablet, tia, você pode comprar pra mim?”


sábado, 4 de abril de 2015

Faça mil favor


Pena que uma ferramenta tão legal quanto o Facebook tenha se transformado, com o perdão da palavra, numa me#&a a maior parte do tempo.
Como eu, acho que muita gente já tirou proveito do Face para localizar amigos e parentes distantes ou pessoas com as quais perdeu o contato.
Também acho legal isso de compartilhar ideias, participar de grupos, aderir a campanhas, promover o resgate de valores, enfim, fazer coisas que contribuam para melhorar o mundo em que vivemos.
Agora, tem um tanto de gente que não tem a mínima noção disso e perde o tempo dela e o meu em compartilhar baboseiras, em postar sua rotina nada atraente (Acordei! Vou comer! Vou dormir!), em mostrar como é linda a ilha da fantasia onde vive e em atropelar a língua portuguesa.
Falando nisso, é sobre isso mesmo que eu queria falar, do quanto se escreve errado nas mídias sociais.
Mas eu não quero fazer nenhuma apologia sobre isso. Quero apenas colocar aqui alguns erros que pincei e que não tem como não rir deles:

Manifestando disponibilidade: Que tau domingo?
Desabafando: Faça mil favor!
Esperto: Colocava a máquina no alto matico!
Estimulando: Vai Ontário!
Concordando: Fases bem amiga!
Despedindo-se: Abrasso do tio!
Avaliando: É muita improquezia!
Doente: To com a garganta enflamada!
Amigo do doente: Meloras!

Aliás, será que é pra rir ou pra chorar?

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Ouro de tolo


Tinha um tempo em que dar presente era um ato de amor. Eu me lembro quanto ficávamos emocionados em entregar o presente do Dia dos Pais, um modesto par de meias ou uma caixinha de lenço; e do Dia das Mães, um sabonete ou uma colônia. Depois veio a época de aproveitar essas datas para comprar algo que fosse necessário para o lar. Foi quando minha mãe equipou a cozinha com aparelhos eletrodomésticos. Até a compra da geladeira nova, do fogão, do sofá, coincidia com o Dia das Mães ou com o aniversário delas. Até elas encherem o saco e começarem a exigir umas coisinhas mais para uso pessoal.
No Natal, as crianças cujos pais podiam comprar, recebiam um presentinho, uma boneca, um carrinho, uma bola. E com um brinde agregado: a fantasia de que por trás do presente tinha a bondade de um velhinho conhecido como Papai Noel.
Hoje, dar presente virou obrigação!
O comércio faz um marketing tão pesado sobre as datas comemorativas que ou você compra o presente, ou sua consciência fica doendo pelo resto do ano. São doses cavalares de apelo à sensibilidade do consumidor.
Os dias de dar presente também se multiplicaram: Natal, Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia dos Namorados, Dia das Crianças, Dia da Secretária, Dia da Mulher, Dia da Avó, Dia da Amizade. Aposto que você nem sabia que já tem o Dia da Sogra, 28 de abril, e o Dia do Sexo, 6 de setembro! Resumindo, o comércio obedece a esta máxima: há sempre uma festa no meio do caminho, e, com ela, a oportunidade de vender um presentinho.
Só para reforçar a prevalência dos interesses comerciais em torno das datas comemorativas, vou contar uma historinha: em grande parte do mundo, o Dia dos Namorados é comemorado em 14 de fevereiro (Valentine’s Day), dia de São Valentin, um santo devotado às causas do amor. No Brasil, a partir de uma campanha para esquentar as vendas de junho, então um mês fraco para o comércio, ficou convencionada a data de 12 de junho, véspera do dia de Santo Antonio, o popular santo casamenteiro, para homenagear os namorados.   
Eu adoro dar presente! E principalmente quando tenho oportunidade de surpreender ou satisfazer um capricho. É muito gratificante!
Porém, tenho observado que essa obrigatoriedade está deixando de ser um ato de amor: “Droga, ainda falta comprar o presente da Gisele!”; “O que vou comprar para o Gabriel, aquele gordo sem noção?”; “Essa Rita é uma chata, mas se eu não comprar nada todo mundo vai falar”; “Que azar, tirei o Jonas no Amigo Oculto e eu nem gosto desse cara!”. E mesmo resmungando as pessoas vão esvaziando as prateleiras das lojas, ora pagando, ora empurrando as contas para depois do carnaval, para depois do Natal, para o ano que vem, enfim. E satisfazendo a fome voraz do consumismo desenfreado!


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

No busão


Hoje, depois de muito tempo – digamos uns 15 anos – me enchi de coragem e tomei um ônibus do transporte coletivo. Melhor dizendo, e usando a linguagem coloquial, tomei o busão.
É claro que eu fiz isso no meio da tarde, em horário em que os ônibus circulam mais leves, com pouca lotação, e acabei até me divertindo.
Mal entrando no veículo dei de cara com gente conhecida. Lá estavam, sorrindo, logo atrás da roleta, meus amigos Fábio e Maninha, e a viagem já virou festa. A despeito dos solavancos que por pouco não me derrubaram no corredor. Mão firme no corrimão, me entretive na conversa e nem vi o tempo passar e por pouco não perdi o ponto de desembarque.
Na volta, mais um encontro inesperado, com a amiga Maria, no terminal do CPA. Foi ela quem me indicou onde embarcar, pois, embora tenha tentado, não consegui decifrar as placas da precária sinalização. Se é que não fiquei atrapalhada por conta do cheiro insuportável de urina que infesta aquele local.
Embora fora do horário de pico, não tive como não me chocar com a falta de educação de motoristas e usuários. Respeito é uma prática pouco utilizada no transporte coletivo. E faz uma falta medonha.
Do pouco que vi, posso calcular quanto desapontamento, raiva e frustração passam os usuários que lidam com a rotina do transporte coletivo, submetendo-se a empurrões, xingamentos, mau humor, desconforto, violência física e mental.
Andar de ônibus, pelo jeito, é para quem tem coragem, perseverança e, obviamente, não tem outro meio de locomoção. E para gente como eu que escolhe o melhor horário para circular e tem interesse por novas histórias para contar.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Pague ou morra... de raiva!


Por conta de uma transferência de titularidade, não recebi a fatura e, por um descuido, não fiz o pagamento da conta da Sky. Sem medo de cometer exagero, me senti caçada feito um animal, ou mesmo um bandido que cometeu uma atrocidade. Em menos de 20 minutos recebi cobrança por e-mail, por telefone, por mensagem no celular e pela tela da televisão.
Fiquei com medo de sair à sacada e me deparar com um balão sobrevoando o prédio onde moro com a mensagem padrão: “Senhora Loreci, não identificamos o pagamento da sua fatura. Regularize seu pagamento sob pena de perder o sinal”.
Na porta da rua, recuei. – E se a polícia federal está me aguardando do lado de fora do portão? – pensei e minha imaginação até construiu uma barricada de artilharia pesada do outro lado da rua. A essas alturas eu já estava em pânico e com medo até de sair do lugar. Mas reagi, respirei fundo e providenciei o pagamento imediatamente.
Parece brincadeira, mas não é. Na verdade, é muito sério isso. É uma forma tão intimidadora de cobrança que dá até raiva. Aliás, acho que a gente paga, mesmo, é de raiva.
Essa história me remeteu a uma outra, quando tive a infeliz ideia de financiar um veículo para outra pessoa. Junto com o financiamento, assumi uma parcela extra de raiva todo mês. O indivíduo não pagava a fatura e quem era cobrada era eu. Passava a maior parte do mês recebendo ligações em casa, no trabalho, na casa dos outros, quando não, sendo incluída no cadastro do SPC (Serviço de Proteção ao Crédito).
Essa situação vexatória se prolongou por vários meses, até o veículo ser quitado, porque a pessoa em questão não conseguia transferi-lo para seu nome, por motivos óbvios.
E chego à conclusão agora que provavelmente é para esse tipo de mau pagador que a estratégia de cobrança da Sky é dirigida, embora eu duvide de sua eficácia, porque ela intimida gente como eu, que paga suas contas em dia. Caloteiros do tipo desse meu amigo não se amedrontam nem se alvoroçam quando cobrados. No máximo, caso se sintam constrangidos, processam os autores da cobrança e reclamam danos morais.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Que bafão!


... e, então, aconteceu isso: quando olhei para baixo vi que estava com um sapato de cada par.
– Pelo menos são da mesma cor? – perguntou minha filha quando contei pelo WhatsApp.
– Sim – respondi – e os dois têm um laço em cima, embora um deles seja dourado.
Quer dizer: perfeitamente visível a diferença. Qualquer um que olhasse para meus pés perceberia a diferença.
Sem ter como consertar o problema, passei o resto da manhã e um pedaço da tarde com os sapatos trocados.
Sempre que podia, virava discretamente um pé ou o outro, até o ponto em que acabei me esquecendo totalmente do fato.
Não sei se alguém percebeu e se percebeu não me deixou perceber que havia percebido. Mas fiquei imaginando o que pensaria uma pessoa que visse a cena:
“Olha só aquela próxima, já está até calçando sapato trocado!”
“Coitada! Vai ver estragou um dos sapatos!”
“Como é que deixam sair de casa assim?”
“Será que ela quer chamar atenção?”
“Que perigo! Uma hora dessas pode sair pelada!”
“Que bafão! Eu morreria de vergonha!”
Pois eu não morri de vergonha.
Mas quase morri de rir. De mim mesma!

domingo, 6 de abril de 2014

Pé no chão


Quase não acreditei quando a vi, passando por uma rua num bairro da cidade: uma casa com cerca de madeira, quintal de chão batido, florezinhas amarelas e vermelhas e... uma saudade medonha!
Assim eram nossas casas nos meus tempos de guria. Com portõezinhos fechados na tramela que podiam ser abertos pelo lado de fora, enfiando-se a mão pelos vãos. E que às vezes rangiam por falta de graxa.
E me lembrei da Dona Filhinha, que em meio as flores do seu quintal tinha um poço artesiano, de manivela, daqueles que o balde desce cantando e sobe transbordando de água.
E me lembrei dos bolos feitos de terra, das fazendinhas com gado de osso, das incursões pelos quintais alheios à cata de “preciosidades” que pudessem incrementar as brincadeiras.
E dos pés de caqui, onde nos pendurávamos para brincar de circo.
E das frutinhas de sinamomo que os meninos usavam nos bodoques.
E dos pés de pitanga que adoçavam ainda mais os nossos piqueniques.
E dos nossos próprios pés no chão.
E não tive como não me lembrar das prisões em que transformamos nossas casas, atrás de altos muros e grossas grades de ferro, com pátios inteiros de concreto e sem uma única árvore para fazer sombra, colher uma fruta ou fazer um balanço pra criança brincar.


quinta-feira, 20 de março de 2014

Eu e a panela de pressão


Nunca me dei muito bem com as panelas. Na divisão de tarefas, sempre me couberam melhor a vassoura, o balde e o pano de chão. Provavelmente pela reconhecida falta de habilidade com elas, as panelas.
Com o passar do tempo, às vezes pela necessidade e gradativamente pelo prazer, fui me afeiçoando a elas e exercitando, com elas, meus acanhados dotes culinários. Um macarrãozinho aqui, um arrozinho ali, um bifinho acolá e... uma lacuna imensa no cardápio: o feijão.
Por conta de um acidente doméstico que eu não cheguei a presenciar, mas que me traumatizou em razão do rombo provocado no teto de casa em decorrência de uma explosão, a panela de pressão sempre me amedrontou. E se transformou numa barreira entre eu e o feijão (cozinhar feijão em panela comum, não dá, né?).
Os anos foram passando e sempre que colocar a comida na mesa dependia de mim, a lacuna estava lá, gritando nos meus ouvidos a bendita ausência do feijão. Vez ou outra pedia a minha cunhada ou à vizinha que cozinhassem o feijão para mim, o que elas faziam na minha própria panela de pressão.
E assim foi até que um belo dia eu decretei que estava na hora de mudar isso. “Depois de superar tantos desafios, não será uma panela de pressão que irá me vencer”, filosofei e meti a mão na massa, digo no feijão. E deu certo, tão certo que nunca mais faltou feijão na mesa. Até sobrou ousadia para preparar um prato que amo de paixão: lagarto de panela de pressão!

terça-feira, 11 de março de 2014

O Dia do Primeiro


Acho que toda mãe tem que ter um pouco de psicologia. Minha mãe mesmo era exímia nessa arte. Ela sabia acalmar e comandar a criançada como ninguém. Era jeitosa com os pequenos desde que eles eram bebezinhos. E eu aprendi com ela várias “técnicas” que me ajudaram muito, embora eu não tivesse nem de longe a paciência dela.
Educar filhos requer um bocado de habilidade. As diferenças entre eles são gritantes e a individualidade de cada um tem que ser preservada. Mas, o bicho pega mesmo é quando eles entram em rota de colisão, disputando a mesma coisa: o único brinquedo, escolher o canal da televisão, definir quem senta na direita ou na esquerda, enfim, o que é muito comum quando existe pouca diferença de idade entre os irmãos, como aconteceu com as minhas filhas.
Pois em casa, antes da gente morrer de raiva, ficou estipulado o Dia do Primeiro, que funcionava assim: num dia uma, no outro dia a outra, elas viviam o Dia do Primeiro e, então, isso determinava a primazia em tudo, inclusive escolher quem sairia primeiro da cama, quem tomaria o banho primeiro, quem comeria a última bolacha do pacote... Como elas iam de ônibus escolar para o colégio, até isso entrou pra lista: a que estava no Dia do Primeiro tinha a “grande” vantagem de entrar primeiro no ônibus!
A coisa ficou tão rigorosa e elas levavam isso tão a sério que o Dia do Primeiro passou a valer para absolutamente tudo, inclusive para coisas tão banais quanto abrir e fechar a porta, acender e apagar a luz, entrar e sair do elevador...
As brigas diminuíram consideravelmente, porque, afinal, ambas sabiam muito bem que, embora tivessem que se submeter ao reinado da outra num dia, no outro, eram a própria rainha.
Resumindo: Foi uma mão na roda esse tal Dia do Primeiro! 

sábado, 1 de março de 2014

Gripe


Acordei assim: nariz escorrendo, garganta doendo, corpo ruim... Até o meu café cappucinno que abre o meu dia com mais sabor estava com gosto amargo.
– Droga de gripe – pensei, já me preparando para um dia maçante.
Quer coisa mais sem-graça do que gripe? A cabeça fica pesada, os ossos parecem ter sido moídos, os olhos ficam lacrimejando e o nariz escorre sem parar.
Com todos esses sintomas, o melhor mesmo seria ficar o dia inteiro de molho, como bem sugeria uma antiga propaganda: “Gripe? Vitamina C e cama”. Só que isso quase sempre é impossível, então...
Mas, por mais incrível que possa parecer, conheço uma pessoa que não apenas é defensor da gripe, como recomenda uma boa gripe para efeitos de promover uma limpeza no organismo.
Esse meu amigo é reflexologista e, segundo ele, através da gripe, eliminamos, junto com as secreções, impurezas do organismo que provocam doenças.
“Bons tempos eram aqueles em que as crianças viviam ranhentas”, diz ele, “ranhentas, mas saudáveis”.
Pois não é que fui uma ranhentinha dessas quando criança? Eu, meus irmãos e todos os meus vizinhos. O que não nos impedia de brincar e correr o dia inteiro, parando de vez em quando para limpar o nariz num lencinho ou mesmo na manga do casaco.
E, quer saber, não me lembro de frequentarmos consultórios médicos. Acho até que jamais estive em um durante toda a minha infância. Ao contrário das crianças que, hoje em dia, não dão folga ao pediatra.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Preconceitos


Essa história aconteceu quando eu era uma jovem recém formada e trabalhava numa rádio na minha cidade, onde a equipe era basicamente masculina e nenhum dos homens possuía curso superior. Além de mim, havia uma outra jornalista que se revezava comigo na função de rádio-escuta, que consistia em ouvir e reescrever notícias veiculadas nas grandes emissoras. Nós duas trabalhávamos isoladas, ela no período da manhã, eu no período da tarde, em uma salinha de onde saíamos apenas para entregar os noticiários aos locutores.
Certa ocasião, fui prestigiar uma programação esportiva que havia trazido à cidade um astro do esporte e que mereceu cobertura completa da rádio. Como eu já conhecia o cara, por ter feito uma entrevista com ele naquele dia para o jornal onde era repórter, os locutores me pediram para entrevistá-lo ao vivo. Enquanto eu fazia a entrevista, o dono da rádio chegou ao local e acompanhou a matéria. Então, ele me cobriu de elogios e disse aos locutores que queria me ver mais vezes fazendo isso. “Tem que abrir mais o microfone para essa guria”, recomendou.
Eles fizeram exatamente o contrário: nunca mais me deixaram chegar perto do microfone.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Aparências


Uma vez, um amigo me perguntou se eu havia observado que o carro dele e o meu eram os mais velhos no pátio da empresa em que trabalhávamos. De fato eu não havia me dado conta disso, mas também não me incomodei nem um pouquinho porque, embora rodando com um carrinho já meio passado do ponto, minha geladeira estava cheia, minhas filhas estudavam em escola particular e eu dormia com o ar condicionado ligado. Não era o caso de todos os proprietários de veículos novos daquele local, mas eu sabia que uma boa parte deles comia mal, vivia mal e andava sempre com a corda no pescoço, sem um tostão no bolso. Quando não tinha que deixar o carro em casa por falta de combustível ou documentação em dia.
E continuo vendo muito disso por aí, gente que vive de aparências, que prefere andar no auge da moda ou desfilando grifes fora do alcance dos seus recursos ou ostentando coisas que seu salário não paga, enquanto se ressente de conforto e qualidade de vida para si e para a família.
Pra mim, por exemplo, conforto é sinônimo de ar condicionado, chuveiro quente, comida farta, casa que não chove dentro, combustível para ir e vir, boa educação, entre outras coisas que auxiliam as pessoas a ter uma boa noite de sono, a manter a saúde e a promover bem estar e desenvolvimento.
É claro que isso tudo tem muito a ver com as prioridades que cada qual estabelece para si, mas essa história me lembra muito aquilo que se diz do camarada que come sardinha e arrota camarão.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Falando de pão


Eu me criei comendo pão caseiro, pão rechonchudo, pão farto, pão gigantesco, quase de metro, na altura e no comprimento. Minha mãe, minha vó, minhas tias, todo mundo fazia um pão que dava gosto só de olhar. E que era até difícil de fatiar. Saído quentinho do forno, daqueles fornos de lenha que compunham a paisagem de qualquer quintal, o pão, era só o tempo de esfriar um tiquinho, já era distribuído em fatias, coberto de manteiga e mel, nata e geleia, ou mesmo puro, com um naco de queijo e um pedaço de salame.
Com o tempo, os fornos do quintal foram sendo substituídos pelo fogão à gás e o pão virou coisa de se comprar, virou pão d’água, pão de sal, pão francês ou pão cacetinho, como é conhecido no Rio Grande do Sul. E virou o pão consumido por, creio que, 10 em cada 10 brasileiros.
Pois esse pãozinho nosso de cada dia, em razão de seus altos índices de carboidratos, parece estar com os dias contados. Virou o vilão das dietas e da saúde de seus consumidores. Médicos em massa desaconselham seu consumo e tá assim de gente torcendo o nariz pra ele.
Em seu lugar, são indicados o pão preto, o pão integral, o pão de centeio, o pão light, o pão de aveia, o pão 7 grãos, o pão 13 grãos... Todos eles com sua dose de gostosura, alguns nem tanto, porém, uns mais, outros menos, todos sinônimos de alimento saudável.
Mas, convenhamos, nem tanto ao mar, nem tanto à terra, pois, conforme andei me informando esse bandido do pão francês tem lá seus atenuantes. Em primeiro lugar porque os carboidratos são erroneamente classificados como os responsáveis pelo ganho de peso e substituídos por gorduras nos alimentos industrializados, contribuindo para que as dietas sejam ainda mais calóricas, mesmo sem a presença deles. Também há o fato de que os carboidratos são recomendados por todas as associações internacionais de Nutrição e Saúde, devendo compor em torno de 50% das calorias ingeridas diariamente em dietas balanceadas.
A vantagem decorrente do consumo do pão integral é pela simples razão de que, enquanto a farinha de trigo utilizada no pão branco passa por um processo de clareamento e refinamento, a outra mantém a casca do trigo, muito rica em fibras que, entre outros benefícios, ajuda a regular o intestino e a controlar o colesterol ruim.
Mas, segundo alguns especialistas, engana-se quem pensa que o pão integral é o menos calórico. Por ser feito com a farinha integral, ele contém mais calorias que o branco. Porém, uma fatia de pão integral sacia mais que duas de pão branco.
Quer saber? Chega de história, tô indo ali comer um pãozinho da hora, com margarina (light) e mortadela, que isso é bom demais!


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Peça de museu



“É do disque água?”. Essa pergunta a gente ouve várias vezes por dia aqui em casa quando atende o telefone. O nosso número residencial consta em uma lista de distribuidores de água mineral, o que justifica o engano. Eu já nem me incomodo mais. Aproveito para fazer propaganda do serviço de entrega de água de um amigo. Acho até que preciso discutir com ele um percentual a título de comissão.
Bem, tirando o primeiro motivo que faz a campainha do telefone fixo disparar, vamos ao segundo, que é a venda de serviços da Net. A Net liga dia sim e outro também. E não adianta explicar e nem xingar os vendedores porque é sempre uma pessoa nova ligando, de posse, provavelmente, de uma lista com os nomes de quem ainda não adquiriu o produto. Já implorei para tirar o número da lista, mas não adianta. Cheguei ao ponto de pensar em assinar o dito serviço, desde que parem de ligar.
O telefone também é acionado por outras companhias de telefonia, por bancos e por associações assistenciais (A senhora está bem? Que bom, não é? Queremos lhe convidar para participar da nossa campanha do leite...). Tem também os trotes, as tentativas de golpe (Tudo bem, tia? Quem está falando é o seu sobrinho que mora mais longe...) e os “desculpe, foi engano”.
De vez em quando – e muito de vez em quando, mesmo – atendemos uma ligação de algum amigo ou parente que deseja falar com algum de nós.
O telefone fixo está caindo totalmente em desuso. Já nem sei mais se vale a pena mantê-lo funcionando. A sua melhor função que era facilitar o acesso principalmente dos parentes que estão longe está perdendo para a popularização dos celulares, que permitem falar horas num interurbano pelo preço de uma ligação local.
E pensar que possuir um telefone fixo era coisa para poucos. Ficava-se anos na fila aguardando a liberação de uma linha. Além de que o seu uso era limitado à troca de informações importantes. Tempo em que o telefone servia só e unicamente para isso.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Fumaça solitária


Ainda bem que eu já parei de fumar!
Com certo alívio, por já não fazer mais parte desse grupo, tenho acompanhado o quanto está sendo difícil para um fumante pitar o seu cigarrinho em paz. Praticamente não se pode fumar mais em lugar algum. E o fumante está sendo sufocado, não pela fumaça do cigarro e sim pela ferrenha cruzada contra o fumo, que fecha portas aos fumantes até onde não existem portas.
Não se fuma mais nos escritórios, nas salas de espera, nos supermercados, nos shoppings centers, nos restaurantes. E nem nos barzinhos, que perderam sua atmosfera esfumaçada temperada pelo odor forte do fumo.
Acho que, com isso, ganhamos todos, fumantes e não fumantes, mais saúde, mais disposição física, mais facilidade para respirar, menor incidência de doenças como câncer de pulmão, infarto e derrame cerebral, entre outros benefícios.
Mas, como ex-fumante, posso garantir que um gole de chopp ou de cerveja tem outro sabor quando acompanhado de uma longa e arrebatadora baforada de cigarro. A gente até se acostuma a degustar uma bebida sem ela, como é o meu caso e de tantos outros ex-fumantes e apreciadores de um chopp gelado. Mas, que de vez em quando bate uma saudade, isso bate.
Mesmo assim, prefiro essa nova condição, a ter que viver acuada, como muitos que conheço, para continuar exercendo o direito cada vez mais restritivo de fumar um cigarro.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A hora da vingança


O Bob, um dos cachorrinhos que mora aqui em casa, está muito gordo. Acho que um dos motivos é porque ele tem por hábito, se a gente não cuidar, comer a ração dele e mais a do Yoshi, o cachorro mais novo. Coisas que a psicologia dos cachorros explica: mais velho na casa, o Bob tem prioridade na hora de comer; então, o Yoshi senta e espera, enquanto o Bob aproveita para comer sua própria ração e um pouco da do outro. O que chamam de instinto e eu chamo de sabotagem.
E agora o Bob vai ter que perder peso. Não por questões estéticas e sim por problemas de saúde. Alguma coisa relacionada ao átrio, às valvas (isso mesmo, valvas, e não válvulas) atrioventriculares e a uma quase cardiopatia.
Como parte da dieta, substituição da ração por uma versão light, que, pelo que eu vi na cara dele, não deve ser nada apetitosa. Diferente da ração a qual ele está acostumado, de frango, de carne ou de salmão, que eu não experimentei, mas deduzi ser bem saborosa. Tanto que ele sabota o outro na hora de comer.
E eis que é chegada a hora da vingança. O Yoshi, que não é nenhum anjinho, embora o texto até aqui faça supor, está se fartando, sozinho, da ração normal. E eu fico imaginando ele esfregando uma patinha na outra e provocando o Bob: “Vai um teco aí, boss?”
Mas, o Yoshi que se cuide, porque se a balança começar a pender para o lado dele, a restrição vai ser geral.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A indignação de sempre

Meu pai, que tem uma perna amputada há mais ou menos 20 anos, vai colocar uma prótese nova. Por conta disto, está fazendo sessões de fisioterapia no Centro de Reabilitação Dom Aquino Correa. Sou acompanhante dele e me surpreendo um pouco cada vez que vou até lá. A primeira coisa que me surpreendeu foi ver a dedicação dos funcionários aos pacientes, embora as péssimas condições de trabalho.
O sucateamento começa no prédio, muito antigo, que ameaça desmoronar. Tem uma parte dele que está fechada por conta disso. A grande maioria das pessoas que frequentam o local tem problemas de locomoção, usa cadeiras de roda, muletas, bengalas, enfim. Seria de se esperar instalações adequadas para deficientes, mas o local conta tão somente com algumas poucas adaptações. Se fosse empresa privada, com certeza já teria sido multada e ficaria impedida de funcionar.  
No setor de fisioterapia, a regra é improvisar, quando não, fazer cota para suprir algumas necessidades, como eu constatei no caso do creme hidratante de uso dos amputados. Junto ao bebedouro, no lugar dos copos, um aviso: “estamos sem copo, traga o seu de casa”. Até o tradicional cafezinho é um problema por lá. Tem dias que não tem café, tem dias que não tem açúcar e tem dias que não tem nem um, nem outro.
Na sala de enfermagem, que não é bem uma sala – está mais para um corredorzinho –, fiquei ainda mais chocada por verificar que o aparelho de pressão usado para medir a pressão dos pacientes não é da enfermaria e sim da enfermeira. E a preocupação de substituir o aparelho que está apresentando problemas é dela, “preciso comprar um aparelho novo”.
O Centro de Reabilitação está morrendo. Os funcionários têm se movimentado em vão contra o sucateamento, mas o governo do Estado continua fazendo ouvidos moucos. Da mesma maneira como tem feito com a saúde de modo geral, com a educação, com a segurança...
O descaso do poder público é realmente uma coisa alarmante. Fico indignada. Não é brincadeira o que se arrecada de impostos neste país, neste estado, neste município. É estarrecedor constatar que muito pouco, muito pouco mesmo, é devolvido aos contribuintes, na forma de serviços essenciais.