domingo, 18 de abril de 2010

Inveja

Inveja! Que atire a primeira pedra quem não tem nem que seja um tiquinho assim ó. É claro que eu não estou falando daquela inveja capaz de secar pimenteira que algumas pessoas possuem e, segundo dizem, é capaz de arrasar um canteiro inteiro de flores. Na verdade, estou falando de invejinha – assim mesmo, no diminutivo –, de coisinha pequena.

Estou me referindo àquele incomodozinho que a gente sente quando o vizinho compra aquele carro que a gente vinha namorando há um bom tempo. Ou de quando aquela conhecida passa num concurso onde vai embolsar, só de gratificação, mais do que a gente leva seis meses para ganhar. – E por que não eu? – é inevitável não pensar, ao mesmo tempo em que – embora a gente não queira admitir – se engole aquela sensação de pesar pela conquista alheia.

De minha parte, sempre considerei esse sentimentozinho inofensivo, pois apesar dele, continuo me definindo como uma boa pessoa, incapaz de desejar o mal alheio. Mas, será isso mesmo? O dicionário é muito claro na definição do termo inveja: desgosto ou pesar pelo bem ou felicidade de outrem. Pensando melhor, talvez eu tenha que rever minhas ideias a respeito. De repente, não tem isso de ser mais ou menos invejoso. E nem de se  encher a boca para dizer "eu tenho inveja, mas é uma inveja boa". Ou "não é invejona, é invejinha". 

O uso da palavra no diminutivo, de fato, não diminui seu sentido. E, sendo assim, lamento informar, mas acho que somos todos – ou pelo menos a grande maioria da humanidade –, por natureza, invejosos.

Ai de nós!

domingo, 7 de março de 2010

As novas donas do asfalto


A cada dia vejo aumentar o número de mulheres pilotando moto nas ruas da cidade. Principalmente nos semáforos é que a gente vê que elas, as motoqueiras, estão cada vez mais presentes no trânsito. São as novas donas – ou seriam damas? – do asfalto.

A par de seu porte elegante – boa parte delas metidas em terninhos e, invariavelmente, sobre uma moto do tipo Biz - elas têm uma particularidade que as distingue no trânsito: andam no ritmo dos carros. Também não ficam ziguezagueando entre os veículos e muito menos furam o sinal.

Eu sempre dirigi devagar. “A tia anda em 20”, exageravam meus sobrinhos. E nesse meu ritmo, consegui evitar muitos acidentes. Uma ou outra ocorrência foi inevitável, sempre por conta da imprudência de outros motoristas.

Na minha concepção, carro (ou moto) é apenas um meio de facilitar a vida, de proporcionar uma locomoção mais rápida. Não mágica. Assim é que acho que essas mulheres em suas “motinhas” estão muito mais livres de se envolverem em acidentes, ao contrário da grande maioria dos motoqueiros que faz da moto uma arma e pensa que pode tudo. Até o ponto em que os vemos estatelados no asfalto e, drasticamente, mudando o destino de sua viagem.

domingo, 29 de novembro de 2009

Pai é pai tanto quanto mãe é mãe


Conversando sobre o abandono de filhos por parte dos pais, minha filha fez um comentário que achei interessante reproduzir aqui: “as pessoas acham um absurdo quando uma mãe abandona o filho, mas quando se trata do pai, parece que é normal”. Eu falei que isso por certo se devia ao fato de que é muito comum os pais abrirem mão dos filhos, deixando-os ao encargo das mães. Com o que ela não concordou: “nada, isso é preconceito mesmo!”.

Fiquei pensando a respeito e concluí que é mesmo verdade. Sempre que a mídia expõe uma notícia em que uma mãe abandona uma criança, a consternação é geral. O mundo inteiro “cai de pau” em cima da mulher. E sobre o homem, nada? Não deveria ter um pai também na história? Ah, isso parece não fazer diferença nenhuma. É como se os nenês fossem responsabilidade só da mãe.

É mesmo impressionante como os homens se safam bonito desse compromisso. Muitas vezes sob aplausos das próprias mães, irmãs, tias, namoradas. Você duvida? Pois saiba que eu já perdi a conta do tanto de mulheres que já vi atormentar maridos, filhos ou namorados para reduzir a atenção ou mesmo cortar os laços com seus rebentos de outros relacionamentos. Não pagar a pensão, atualmente está fora de cogitação porque, felizmente, a lei está sendo cumprida à risca. Mas já foi motivo de muita rixa.

O que precisa mudar é a cabeça das pessoas no sentido de que um filho é fruto de dois. De dois irresponsáveis, se for o caso. Mesmo que se trate de uma prostituta, de uma mulher que usa roupa curta ou de alguém que sai com homens casados. Não importa, sempre tem um homem na outra ponta. E a ele cabe responder na mesma medida. Não é?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Os buracos e a corrupção


Dirigindo a noite em uma avenida por onde circulam diariamente milhares de veículos, um dos buracos me pegou desprevenida e... – Foi-se o pneu - gritei, – emendando um palavrão. Felizmente, há poucos dias comprei um pneu novo para substituir, junto com o estepe ainda zerado, os pneus da frente do carro, deixando dois velhos na traseira, conforme receitinha antiga passada pelos mais entendidos. Pois bem, não fossem meus pneus novos, decerto que me juntaria aos três motoristas (isso mesmo, três!) que trocavam os seus naquele trajeto, sob a fraca iluminação da rua e os borrifos de lama pós-chuva que cobria o asfalto. – Droga – cuspi outro palavrão – o período das chuvas mal começou por aqui e as ruas já estão virando queijo suíço. Vai ser duro chegar ao final da temporada.

Só que os buracos das ruas não são culpa da chuva, não. Eles são resultado dessa corrupção bandida a que o país se habituou a conviver e que se interpõe entre a verba real e a obra propriamente dita. E que deixa nesse trajeto o maior quinhão, restando para a execução do projeto apenas uma quirelinha do dinheiro. O asfalto bom e resistente que a gente merece e deveria reivindicar – não fôssemos um bando de otários que assiste passivamente a essa sem-vergonhice – fica restrito ao papel e serve de base apenas para levantar os recursos. A obra mesmo fica só na capinha.

Não é diferente com a saúde, com a educação, com a segurança, áreas tão esburacadas quanto o asfalto das ruas. E tudo por conta de sermos um país que aceita manter essa corja de corruptos, sorvendo, tal qual abelha no mel, e se empanturrando com os frutos da corrupção. Um país que tem, na outra ponta, uma legião de expectadores, um bando de frouxos, cujo poder de mudar depende apenas e tão somente de acordar.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A deselegante indiscrição alheia



Por duas vezes, hoje, me perguntaram se eu era mãe de uma pessoa que tem em torno de 40 anos. Para isso ser real, eu, que tive minha primeira filha aos 24, teria que ter parido aos 12.
Eu realmente ganhei idade na aparência por conta do cigarro. Foram 30 anos envelhecendo a pele com as centenas de baforadas todos os dias. Mesmo assim, não seria para tanto.

Mas o interessante na história é observar como as pessoas, de modo geral, são deselegantes. Ou enxeridas. Ou bisbilhoteiras. Ou sei lá que adjetivo lhes atribuir. O que lhes importa saber quem é quem vindo de pessoas com as quais não têm nenhuma intimidade?
A pergunta, normalmente, vem assim, de pronto: “é sua mãe? É seu filho? É sua esposa?”. E a resposta, com frequência, provoca constrangimento. “Não, é minha irmã, é meu marido, é minha filha”.

Tenho uma amiga que é morena e o filho, branco. Sempre que saíam, ela com o bebê no colo, as pessoas não tinham nenhum embaraço em perguntar se ela era a babá do nenê. Ou, então, disparavam: “o pai que é branco?”. Tem outra que namora um homem mais jovem e os abelhudos não perdoam: “é seu filho?”.

A indiscrição é uma coisa muito feia e denota falta de educação. Mas eu acho que na nossa sociedade vai um pouco além disso. As pessoas são, por natureza, interessadas demais na vida dos outros. Tanto é que as revistas, os programas de fofoca fazem um tremendo sucesso.
Mas, sempre é bom saber que a gente também pode revidar tanto interesse alheio com uma perguntinha bem simples: “isso é da sua conta?”. Ou, quem sabe, desconcertando um pouquinho mais: “pra que você quer saber?”. Afinal, dizem que nada melhor para combater cara de pau do que uma bela e descarada cara de pau.

domingo, 20 de setembro de 2009

A torneira


Esta semana tive que substituir a torneira da cozinha aqui de casa que estava vazando. Depois de vários consertos e de trocar a borrachinha não sei quantas vezes, não teve outro jeito senão comprar uma torneira nova. Muito bem, depois de feito o serviço que eu, obviamente, não dei conta de fazer – não sou muito chegada a esse tipo de tarefa – peguei a torneira velha e coloquei na calçada da frente de casa, encostadinha na árvore. Costumo fazer isso com as coisas que deixam de ter serventia para mim. Já fiz isso com calçado, panela, travesseiro, aparelho de telefone, ventilador e tantas coisas que perdem sua função ou simplesmente são substituídas por outras mais novas. É incrível, mas é só o tempo de largar os objetos, entrar em casa e voltar pouco tempo depois, e já não resta mais nada; alguém já passou e os recolheu e, com certeza, vai fazer uso deles. Embora a boa intenção, não consigo deixar de achar isso triste. Me dói o coração constatar essa realidade dura de que tem uma parcela da população que vive de restos. Vive do que não nos serve mais. Vive do que nós jogamos fora. E, não sei como, vive de fazer funcionar coisas que não funcionam mais, como a minha torneira, que não demorou nem dez minutos para sumir de debaixo da árvore. E provavelmente está tendo utilidade em alguma cozinha por aí.

domingo, 30 de agosto de 2009

A vitória de parar de fumar


Tem quase cinco anos que eu parei de fumar. Sem dúvida, foi uma das coisas mais difíceis que eu fiz na vida. Já ouvi algumas pessoas dizerem que para elas foi fácil; um dia resolveram parar e... pronto. Comigo as coisas não foram tão simples assim. O primeiro ano foi o pior. A vontade de fumar vinha todos os dias, todas as noites, todas as horas. Depois, foi amenizando. Três anos depois, eu ainda acariciava uma carteira de Carlton com saudade.

Imagino que todo mundo lembra a data que parou de fumar. Eu lembro até a hora. Era meia noite do dia 31 de dezembro. Sim, foi uma resolução de Ano Novo. Fumei até a meia noite e, então, parei. Definitivamente. Até então, como todo bom fumante, eu já tinha feito mais de cem tentativas de parar. Todas frustradas. E a cara deslavada de enfrentar as pessoas depois de ter anunciado pra todo mundo que ia largar o cigarro? Aliás, isso é típico dos fumantes. A falta de dignidade.

Eu também tentei a estratégia de reduzir o número de cigarros fumados por dia. Começava a contagem regressiva: 17, 16, 15, 14, 13, 12. Jamais ultrapassei o número 12. Ao contrário, sempre que chegava nele, a contagem retrocedia: 35, 36, 37... Qualquer coisa servia de pretexto para voltar a fumar no ritmo de antes. Mas, um dia eu consegui a determinação que eu precisava. Aliás, determinação é a palavra chave. Não existe outra. E, no meu caso, ela foi motivada quando eu percebi que o valor que estava dando ao cigarro era demasiado. Havia coisas muito mais valiosas como a vez em que, depois de ter conseguido ficar três dias sem fumar, a minha filha me deu um abraço seguido de uma observação que ficou martelando na minha cabeça: “mãe, como você está cheirosa!”. Decerto que eu vivia fedendo. Em outra ocasião, eu, que adoro dançar, tive que parar na metade de um vanerão, por falta de fôlego.

Dizem que todo ex-fumante é um chato. Eu procuro não ser. Mas, às vezes, eu não consigo resistir e me meto a aconselhar, principalmente os mais jovens, a parar de fumar, porque o cigarro não vale a pena. Invariavelmente, a resposta é a mesma: “eu paro quando eu quiser”. Eu também parei quando eu quis. Depois de quase trinta anos de um estrago irreparável na minha pele, que me faz aparentar uns dez anos mais velha; no meu pulmão, recheado de fuligem; na minha energia, que bloqueia o meu esforço físico; e, ainda, na convivência com minha família, com meus amigos, que muitas vezes eu sacrifiquei por conta de fumar um cigarrinho.