quinta-feira, 2 de junho de 2011

Bonecas negras

Essa história eu ouvi no rádio um dia desses: o cara, que é negro, queria dar uma boneca negra de presente para a sobrinha e se espantou com a variedade disponível no mercado de brinquedos. Diferente, segundo ele, de alguns anos atrás, quando ele procurou, em vão, uma versão negra do Ken – namorado da Barbie – ou algo semelhante para dar de presente à namorada, para que ela se lembrasse dele enquanto ele estivesse viajando. “Acabei comprando um Saci”, brincou.

O mercado está, de fato, ofertando muitas opções de boneca negra, como a Tre-Lê-Lê, a Nenequinha, a Gargalhada, a Milkinha Petit e até mesmo várias versões da Barbie. Há, inclusive, uma loja em São Paulo, a Preta Pretinha, especializada na fabricação de bonecos negros, como também de outras etnias, uma iniciativa de três irmãs negras que, quando crianças, não se reconheciam nas bonecas loiras e de olhos azuis que enchiam as vitrines das lojas de brinquedos.

Assim como o rapaz do rádio e as irmãs negras, tem mães que, independente da cor da pele dos filhos, desejam ensiná-los desde cedo sobre diferenças, tolerância e respeito e acreditam que é importante essa convivência com bonecos que fogem ao padrão europeu dominante nesse segmento. Um padrão que dita conceitos e escancara o preconceito.

Não sei qual é a sua cor, nem o que você pensa sobre isso e muito menos se compraria uma boneca negra para dar de presente a uma criança, mas compartilho com você um vídeo que “pesquei” na Internet e que me encheu de tristeza:


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Livros, escritores e leitores


Neste fim de semana li A vida sexual da Mulher Feia, da gaúcha Claudia Tajes. Ta estranhando o título? Pois eu também estranhei. Mas, saiba que o livro reflete exatamente o título que tem. E é hilário. Às vezes, um tanto patético, cruel até. O que não é nenhuma surpresa nesses tempos em que se cultua tanto a beleza física.

Falando de literatura, tive o prazer de assistir a uma palestra com o jornalista, escritor e cronista Ignácio de Loyola Brandão. O maravilhoso escritor é também um magnífico orador. E que veia cômica! Virei sua admiradora.

Como parte do programa, participei de uma oficina de leitura, onde ficou evidenciada a presença maciça de pedagogas – ai, esse termo pedagoga carrega um charme, uma elegância, um não sei o quê de sofisticação.

Pois, então, as pedagogas que lá estavam, praticamente todas elas desempenhando o ofício de ensinar, são, a maioria delas, péssimas leitoras. Com uma ou outra exceção, descobriram a necessidade – não o prazer – de ler somente quando chegaram à universidade. É óbvio que seus alunos serão, também, péssimos leitores, afora um ou outro que receba estímulos dos pais ou de algum amigo dos livros.

É lamentável essa falta de interesse pela leitura, que produz levas de estudantes que escrevem absurdamente mal. E que também são pouco criativos. Além de que deixam escapar a oportunidade de embarcar nas deliciosas viagens e aventuras que os livros proporcionam a quem a eles se entrega.

E, voltando à oficina, uma experiência relatada lá me fascinou: a de uma mulher que tomou gosto pela leitura através de sua babá, que, curiosamente, não sabia ler. “A babá me contava histórias e me mostrava os livros onde – dizia – eu poderia descobrir muito mais, o que ela não podia fazer, pois não sabia ler”, contou. Dá para imaginar o tamanho da capacidade inventiva dessa babá, caso soubesse ler?

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O homem da cobra

Há quanto tempo eu não via um “homem da cobra”, aquele artista-vendedor de medicamentos que se apresenta nas praças das cidades e que popularizou a expressão “fala mais que o homem da cobra”. Pois bem, o homem da cobra estava lá, numa barraquinha na feira de domingo, polarizando a atenção das pessoas e prometendo mostrar uma tal cascavel que, embora eu tenha permanecido um tempo por ali, cansei de esperar para ver. Também não confirmei se ele serviu a poção que estava sendo preparada num pilão onde de pouco em pouco ele acrescentava uma pitada de diferentes tipos de ervas, e que prometeu compartilhar gratuitamente com quem quisesse.

Com um cocar na cabeça e se passando por índio – embora de índio ele não tivesse nada mais do que o enfeite no cocuruto – o sujeito falava tanto quanto o homem da cobra e ilustrava sua conversa com figuras estampadas em folhas amareladas e puídas que despertavam a atenção dos passantes. Fotografias e desenhos de partes do corpo humano tomadas de úlceras, para cujos males ele indicava o remédio, povoavam aquelas páginas. Algumas fotografias de índios nus também faziam parte do acervo mostrado, com a indicação de que se tratava de parentes seus. “Esta é minha sobrinha, aquele é meu irmão”, apontava nas fotos desgastadas, atribuindo a boa forma física da “parentela” aos costumes indígenas e ao uso constante das ervas.

Enquanto desfiava um rosário de doenças que podem acometer o ser humano, o homem exibia uma coleção de vidros contendo vermes, lombrigas e outros bichos extraídos, segundo ele, de pessoas doentes. E o povo se acotovelava para ver aquele espetáculo de horror. É assombroso como as pessoas têm prazer diante da visão do que é sinistro.

Bem, como não fiquei para o chá, não vi a cobra. E nem o que esse marketing todo rendeu ao dono da cobra. Quem sabe num outro domingo...

domingo, 17 de outubro de 2010

Pobres mulheres!

Acabei de ler A cidade do sol, de Khaled Hosseini, um romance que tem como palco o Afeganistão. Embora fictícia, a história retrata a realidade de uma nação marcada pela violência. Um país que após se livrar da ocupação russa caiu nas mãos do terrorismo talibã e viu suas colinas verdejantes se cobrirem de sangue e desolação.

Não menos real as agruras vividas pelas protagonistas do amargo romance de Hosseini, num país em que uma mulher pode valer tanto quanto uma cabra e cujas funções básicas se resumem a lavar e cozinhar para o marido, bem como aliviá-lo em suas necessidades sexuais, e procriar.

Prometidas ainda meninas, vendidas ou entregues a troco de dívidas, quiçá de bananas, as pobres mulheres do Afeganistão passam a pertencer aos seus maridos que delas podem dispor da maneira que melhor lhes convier. E tudo isso sob o beneplácito do governo e da religião.

Tal qual na ficção, mulheres são agredidas dentro de casa e fora dela pelos motivos mais banais. Praticamente tudo lhes é proibido; portanto praticamente tudo é motivo de punição.

Para nós, ocidentais, é difícil imaginar uma mulher conviver com tantas restrições. Já pensou se tivéssemos que ver o mundo por detrás de uma burca? E se não pudéssemos estudar, nem trabalhar fora? E se para ir ao shopping, à padaria ou mesmo à mercearia da esquina precisássemos da companhia de um mahram (pai, irmão ou marido)? Provavelmente, muitas de nós nesse imenso universo de mulheres que criam seus filhos sozinhas (ou porque estão divorciadas, ou porque foram abandonadas, ou mesmo porque nunca tiveram quem assumisse a paternidade de seus rebentos) morreríamos, junto com nossos filhos, de fome.

As barbaridades cometidas contra as mulheres no Afeganistão, como de resto em uma série de outros países, estão na contramão do processo de evolução da humanidade. E aqueles homens que as cometem, acobertados por leis covardes e pelo radicalismo religioso ignoram o que é o nosso termômetro do bem e do mal: a consciência. A consciência que nos guia e nos diferencia. Dos animais.

domingo, 26 de setembro de 2010

Porque acredito em reencarnação

Eu sempre tive lá minhas pendengas com os assuntos de ordem religiosa. Nasci e me criei católica. Fui batizada, crismada e fiz a primeira comunhão, tudo dentro dos conformes. Mas, confesso que nunca me conformei muito com os trâmites do catolicismo. A pior parte era a bendita confissão. Eu tinha a maior dificuldade para inventar um pecado para contar ao padre. Inventar, sim, porque não? Quantos pecados pode cometer uma criança que não mata, não rouba, não cobiça, não levanta falso testemunho, etc?

Quantas vezes me peguei suando frio na fila do confessionário, pensando nalgum pecado que pudesse ser usado para obter o perdão do padre. “Perdoe-me porque pequei padre; briguei com meu irmãozinho”. Não, esse eu já tinha usado na vez anterior. “Desobedeci minha mãe?”. Esse era um bom pecado, mas isso, de fato, não tinha acontecido. O jeito era apelar para o “falei nome feio”, que sempre caía bem, mesmo que eu não tivesse pronunciado sequer um “puta que pariu”.

A confissão traumática, a cantilena repetitiva das missas, entre outras coisinhas, terminaram por me desviar do caminho. Um caminho que estou reencontrando aos poucos através de outras crenças. Uma delas, a da reencarnação.

Mais espiritualista do que propriamente espírita, penso que o fenômeno da reencarnação explica as tantas diferenças entre os homens, as afinidades, as divergências, as vontades não satisfeitas, as anomalias, as misérias extremas.

Creio que estejamos todos sujeitos à mesma balança. E que todo o mal praticado haverá de ser compensado pelo bem, senão nesta, em uma outra oportunidade, que nos é dada através da reencarnação.

Isso me parece muito justo e espero, através do estudo, conseguir fazer com que essa linha de pensamento seja determinante nos meus atos, pelo menos na maioria deles. Ou até onde a minha ignorância permitir.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Nostalgia

Hoje amanheci com vontade de fazer poesia. E fiz:

Era de manhã e
Por sobre o muro veio o cheiro de relva molhada,
Evocando lembranças,
Atiçando saudades
De um tempo que não volta,
Jamais.
Bisbilhoteira,
Espiei pelo portão de bronze recortado.
Sem que me vissem,
Meninos corriam por entre as árvores do jardim florido.
Meninos travessos,
Meninos danados.
Ora anjos endemoninhados,
Ora demônios angelicais,
Eu os invejei.
O que será que eles têm
Que eu não tenho mais?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Os tempos mudaram

As pessoas da minha geração foram educadas para tratar os adultos por Senhor ou Senhora. Isso valia para os pais, os avós, os tios, os vizinhos, enfim, para todo mundo. E era sinônimo de respeito.

Hoje, chamar de senhora uma mulher de 40 anos ou mais é quase uma ofensa. Isso vale para os filhos, para os sobrinhos, para os amigos dos filhos e até mesmo para os atendentes de loja, para o cabeleireiro, para o padeiro.

É delicioso ser tratada de você, principalmente se do outro lado está alguém jovem e cheio de vida, pois é assim que nós – as cinquentonas e outras onas – nos sentimos. Se nos chamarem de moça, então, é a glória.

Já foi o tempo em que idade madura era igual uma cadeira de balanço, mais um par de óculos e uma peça de crochê.

E para quem pensa que chamar uma vovó de você é falta de respeito, está na hora de se modernizar. Aliás, acho que as pessoas que mexem com o público em suas ocupações deveriam atentar para esse aspecto e substituir o envelhecido e desgastado senhora pelo jovial e contemporâneo você. Uma mudança de tratamento que senhora nenhuma, por mais emburrada que esteja, irá resistir.