Com esses dias amanhecendo assim meio emburrados, eu me encho de expectativa logo de manhã: tem chuva boa vindo aí! Mas, que nada! O dia termina do mesmo jeito que começou, sem uma gota d’água caindo do céu.
Ai, que saudade da chuva! Chuva farta escorrendo por entre as gramas do jardim, encharcando minha roseira ainda sem flor. Chuva começando a gotejar no varal repleto de roupa lavada, alarmando a família inteira que se põe a correr para o quintal. Chuva forte teimando em fazer uma goteira no telhado para se infiltrar casa adentro, formando um desenho molhado no chão.
Essa ansiedade pela chuva que não chega me remete a minha infância, quando, diante de uma estiagem, as pessoas tinham por hábito lavar o santo nas águas do rio. Na rua onde eu morava, a vizinhança inteira se reunia e, em procissão, caminhava até o rio, onde o santo era mergulhado nas águas, sob as preces dos caminhantes.
Nós, as crianças, acompanhávamos aquilo com muita admiração. A coisa tinha uma conotação de festa, com um sabor de aventura que nos divertia e deliciava.
Pois, não é que dois ou três dias depois, a chuva caía, mansa e farta? Pra comemorar, nos esbaldávamos na enxurrada. De um jeito que não se faz mais hoje.



