sábado, 1 de maio de 2010

A velhinha, o cachorrinho e as latas


A “veinha” tocou a campainha em casa. Depois de atendê-la, minha filha falou: – Ela está com o cachorrinho (que a segue pra todo lado, onde quer que ela vá). Você poderia escrever sobre isso.
Sinceramente, não sei o que escrever sobre o cachorrinho, mas posso escrever um pouquinho sobre a dona dele, a “veinha”, na verdade, uma senhorinha muito simpática que é nossa vizinha e vive às voltas de recolher lata ou fazer pequenos servicinhos aqui e ali. Não é tão velha quanto é maltratada, a pele riscada pelo sol e um tanto acho que pela dureza da vida. Pequenininha, tem os cabelos branquinhos e os mantém num coquinho, às vezes debaixo de um boné vermelho.
Nem tão velhinha, nem tão pobrezinha. Ela recebe aposentadoria como viúva e por isso mesmo não se aposentou – “para não perder o outro benefício”. Tem casa própria e a está ampliando. Nem por isso recusa uma oferta de algum alimento ou de uma roupa usada. E mantém sua rotina de ficar andando, sempre sob o sol forte, apanhando lata de casa em casa, no posto, no bar, na rua.
De vez em quando, as sacolas com latinha são tantas que ela pede para a gente guardar até ela concluir o recolhimento. Mais tarde volta e, então, num cabo de vassoura, encaixa sacola por sacola e, com o fardo sobre os ombros, retoma o caminho de casa. Isso quando não chega com o carrinho de mão carregado de latinhas e nessas ocasiões ele me parece ainda mais pequena.
Às vezes nos encontramos na feira do bairro e ela se aproxima, contente, para um abraço. Já contou que tem um filho e uma nora, embora nossas conversas girem mais sobre o tempo, sobre o preço das coisas, sobre a corrupção – e ela tem opinião bem formada sobre isso. O que me faz admirar ainda mais essa grande mulher que é essa miúda “veinha”.
Ah, o nome dela é Maria.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Passe adiante

Como quase todo estudante universitário – e especialmente da área de Comunicação – já tive minhas inclinações pela esquerda política brasileira. E olha que peguei já o finalzinho da ditadura (jamais esquecerei a imagem do paredão formado pela polícia armada com cassetetes e gás pronta a impedir, sob o manto do medo, qualquer movimentação, no caso, dos estudantes). A democracia foi, sem dúvida, muito bem-vinda.

Mas, convenhamos, o que se vê hoje já não é mais uma democracia. Estamos, sim, vivendo sob o porre dela. Excesso de direitos e um mínimo de deveres constroem uma sociedade fragilizada, refém da violência e – tanto quanto no outro regime – do medo.

Vivemos entocados, atrás de muros altos e, tanto quanto podemos, munidos de mil artimanhas para nos proteger da violência. Violência que se alimenta da falta de vergonha, da falta de limites, da falta de punição e da falta de leis mais severas que efetivamente funcionem. A pretexto de não punir o inocente, beneficia-se o infrator.

Barbaridades são cometidas todos os dias sob os nossos olhos chocados. Vivemos acuados. Vivemos assustados. Vivemos entristecidos. Chegamos ao ponto de questionar os nossos valores.

Felizmente, mesmo balançados, continuamos a fazer parte da corrente do bem. E mantendo princípios fundamentais, como caráter, retidão, honestidade, respeito, compaixão, solidariedade...

Precisamos, sim, é fortalecê-los.

E passar adiante.

domingo, 18 de abril de 2010

Inveja

Inveja! Que atire a primeira pedra quem não tem nem que seja um tiquinho assim ó. É claro que eu não estou falando daquela inveja capaz de secar pimenteira que algumas pessoas possuem e, segundo dizem, é capaz de arrasar um canteiro inteiro de flores. Na verdade, estou falando de invejinha – assim mesmo, no diminutivo –, de coisinha pequena.

Estou me referindo àquele incomodozinho que a gente sente quando o vizinho compra aquele carro que a gente vinha namorando há um bom tempo. Ou de quando aquela conhecida passa num concurso onde vai embolsar, só de gratificação, mais do que a gente leva seis meses para ganhar. – E por que não eu? – é inevitável não pensar, ao mesmo tempo em que – embora a gente não queira admitir – se engole aquela sensação de pesar pela conquista alheia.

De minha parte, sempre considerei esse sentimentozinho inofensivo, pois apesar dele, continuo me definindo como uma boa pessoa, incapaz de desejar o mal alheio. Mas, será isso mesmo? O dicionário é muito claro na definição do termo inveja: desgosto ou pesar pelo bem ou felicidade de outrem. Pensando melhor, talvez eu tenha que rever minhas ideias a respeito. De repente, não tem isso de ser mais ou menos invejoso. E nem de se  encher a boca para dizer "eu tenho inveja, mas é uma inveja boa". Ou "não é invejona, é invejinha". 

O uso da palavra no diminutivo, de fato, não diminui seu sentido. E, sendo assim, lamento informar, mas acho que somos todos – ou pelo menos a grande maioria da humanidade –, por natureza, invejosos.

Ai de nós!

domingo, 7 de março de 2010

As novas donas do asfalto


A cada dia vejo aumentar o número de mulheres pilotando moto nas ruas da cidade. Principalmente nos semáforos é que a gente vê que elas, as motoqueiras, estão cada vez mais presentes no trânsito. São as novas donas – ou seriam damas? – do asfalto.

A par de seu porte elegante – boa parte delas metidas em terninhos e, invariavelmente, sobre uma moto do tipo Biz - elas têm uma particularidade que as distingue no trânsito: andam no ritmo dos carros. Também não ficam ziguezagueando entre os veículos e muito menos furam o sinal.

Eu sempre dirigi devagar. “A tia anda em 20”, exageravam meus sobrinhos. E nesse meu ritmo, consegui evitar muitos acidentes. Uma ou outra ocorrência foi inevitável, sempre por conta da imprudência de outros motoristas.

Na minha concepção, carro (ou moto) é apenas um meio de facilitar a vida, de proporcionar uma locomoção mais rápida. Não mágica. Assim é que acho que essas mulheres em suas “motinhas” estão muito mais livres de se envolverem em acidentes, ao contrário da grande maioria dos motoqueiros que faz da moto uma arma e pensa que pode tudo. Até o ponto em que os vemos estatelados no asfalto e, drasticamente, mudando o destino de sua viagem.

domingo, 29 de novembro de 2009

Pai é pai tanto quanto mãe é mãe


Conversando sobre o abandono de filhos por parte dos pais, minha filha fez um comentário que achei interessante reproduzir aqui: “as pessoas acham um absurdo quando uma mãe abandona o filho, mas quando se trata do pai, parece que é normal”. Eu falei que isso por certo se devia ao fato de que é muito comum os pais abrirem mão dos filhos, deixando-os ao encargo das mães. Com o que ela não concordou: “nada, isso é preconceito mesmo!”.

Fiquei pensando a respeito e concluí que é mesmo verdade. Sempre que a mídia expõe uma notícia em que uma mãe abandona uma criança, a consternação é geral. O mundo inteiro “cai de pau” em cima da mulher. E sobre o homem, nada? Não deveria ter um pai também na história? Ah, isso parece não fazer diferença nenhuma. É como se os nenês fossem responsabilidade só da mãe.

É mesmo impressionante como os homens se safam bonito desse compromisso. Muitas vezes sob aplausos das próprias mães, irmãs, tias, namoradas. Você duvida? Pois saiba que eu já perdi a conta do tanto de mulheres que já vi atormentar maridos, filhos ou namorados para reduzir a atenção ou mesmo cortar os laços com seus rebentos de outros relacionamentos. Não pagar a pensão, atualmente está fora de cogitação porque, felizmente, a lei está sendo cumprida à risca. Mas já foi motivo de muita rixa.

O que precisa mudar é a cabeça das pessoas no sentido de que um filho é fruto de dois. De dois irresponsáveis, se for o caso. Mesmo que se trate de uma prostituta, de uma mulher que usa roupa curta ou de alguém que sai com homens casados. Não importa, sempre tem um homem na outra ponta. E a ele cabe responder na mesma medida. Não é?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Os buracos e a corrupção


Dirigindo a noite em uma avenida por onde circulam diariamente milhares de veículos, um dos buracos me pegou desprevenida e... – Foi-se o pneu - gritei, – emendando um palavrão. Felizmente, há poucos dias comprei um pneu novo para substituir, junto com o estepe ainda zerado, os pneus da frente do carro, deixando dois velhos na traseira, conforme receitinha antiga passada pelos mais entendidos. Pois bem, não fossem meus pneus novos, decerto que me juntaria aos três motoristas (isso mesmo, três!) que trocavam os seus naquele trajeto, sob a fraca iluminação da rua e os borrifos de lama pós-chuva que cobria o asfalto. – Droga – cuspi outro palavrão – o período das chuvas mal começou por aqui e as ruas já estão virando queijo suíço. Vai ser duro chegar ao final da temporada.

Só que os buracos das ruas não são culpa da chuva, não. Eles são resultado dessa corrupção bandida a que o país se habituou a conviver e que se interpõe entre a verba real e a obra propriamente dita. E que deixa nesse trajeto o maior quinhão, restando para a execução do projeto apenas uma quirelinha do dinheiro. O asfalto bom e resistente que a gente merece e deveria reivindicar – não fôssemos um bando de otários que assiste passivamente a essa sem-vergonhice – fica restrito ao papel e serve de base apenas para levantar os recursos. A obra mesmo fica só na capinha.

Não é diferente com a saúde, com a educação, com a segurança, áreas tão esburacadas quanto o asfalto das ruas. E tudo por conta de sermos um país que aceita manter essa corja de corruptos, sorvendo, tal qual abelha no mel, e se empanturrando com os frutos da corrupção. Um país que tem, na outra ponta, uma legião de expectadores, um bando de frouxos, cujo poder de mudar depende apenas e tão somente de acordar.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A deselegante indiscrição alheia



Por duas vezes, hoje, me perguntaram se eu era mãe de uma pessoa que tem em torno de 40 anos. Para isso ser real, eu, que tive minha primeira filha aos 24, teria que ter parido aos 12.
Eu realmente ganhei idade na aparência por conta do cigarro. Foram 30 anos envelhecendo a pele com as centenas de baforadas todos os dias. Mesmo assim, não seria para tanto.

Mas o interessante na história é observar como as pessoas, de modo geral, são deselegantes. Ou enxeridas. Ou bisbilhoteiras. Ou sei lá que adjetivo lhes atribuir. O que lhes importa saber quem é quem vindo de pessoas com as quais não têm nenhuma intimidade?
A pergunta, normalmente, vem assim, de pronto: “é sua mãe? É seu filho? É sua esposa?”. E a resposta, com frequência, provoca constrangimento. “Não, é minha irmã, é meu marido, é minha filha”.

Tenho uma amiga que é morena e o filho, branco. Sempre que saíam, ela com o bebê no colo, as pessoas não tinham nenhum embaraço em perguntar se ela era a babá do nenê. Ou, então, disparavam: “o pai que é branco?”. Tem outra que namora um homem mais jovem e os abelhudos não perdoam: “é seu filho?”.

A indiscrição é uma coisa muito feia e denota falta de educação. Mas eu acho que na nossa sociedade vai um pouco além disso. As pessoas são, por natureza, interessadas demais na vida dos outros. Tanto é que as revistas, os programas de fofoca fazem um tremendo sucesso.
Mas, sempre é bom saber que a gente também pode revidar tanto interesse alheio com uma perguntinha bem simples: “isso é da sua conta?”. Ou, quem sabe, desconcertando um pouquinho mais: “pra que você quer saber?”. Afinal, dizem que nada melhor para combater cara de pau do que uma bela e descarada cara de pau.