quinta-feira, 14 de julho de 2011

A moça e a vaga do idoso

Chegando ao shopping, vi uma jovem manobrando para estacionar numa vaga para idoso. Parei o carro e fiquei observando ela desembarcar de sua bela caminhonete, pegar a bolsa e, lépida e fagueira, seguir em direção à porta principal do shopping. E eu fiquei ali, de boca aberta, surpresa com a cara de pau da garota. E indignada!

Por que alguém de vinte e poucos anos ocupa uma vaga reservada aos idosos? Porque não tem educação. Porque não tem princípios. Porque não tem valores. Valores que a maioria de nós recebeu dos pais, que os receberam de nossos avós e que agora procuramos transmitir aos nossos filhos e netos. Valores que essa moça, como tantas outras moças e moços, não receberam ou não absorveram ou perderam, ou, ainda, não fazem questão de respeitar.

São esses valores que fazem diferença dentro da sociedade e que, aliás, estão sendo tão necessários nesses tempos de tanto mau-caratismo.

O problema do uso indevido das vagas especiais foi motivo de uma campanha realizada pela agência TheGetz, em Curitiba, que usou como argumento a situação inversa. Veja o vídeo:


sábado, 9 de julho de 2011

Vizinho Camarada

No meu bairro está sendo desenvolvido um projeto que se chama SEJA UM VIZINHO CAMARADA. É uma iniciativa muito legal que coloca a comunidade lado a lado com a polícia e funciona de uma forma muito simples: os vizinhos formam uma rede de contato e através dela podem monitorar a movimentação nas residências ao redor da sua, identificando fatos fora do comum como a circulação de pessoas estranhas, a presença de veículos suspeitos, portões abertos, etc. A evidência de fatos estranhos pode ser comunicada ao próprio vizinho, através do telefone que consta de uma lista comum aos moradores, ao Comando da Companhia ou ainda diretamente à Guarnição Policial.

Com a supervisão direta da Companhia de Policiamento Comunitário da Polícia Militar, o projeto se complementa com rondas freqüentes da polícia no bairro e reuniões com os moradores para avaliar os resultados e conscientizar a comunidade.

E o que mais me surpreendeu na última reunião, da qual participei, foi o empenho da equipe policial responsável, em contrapartida à baixa participação da comunidade. O capitão que apresentou o andamento do projeto e que acompanha pessoalmente sua execução fez, ele próprio, as ligações telefônicas convidando a comunidade.

Pouquíssimas pessoas atenderam ao chamado, confirmando que o povo prefere a lamentação à ação. É claro que o governo é muito ineficiente nas áreas que lhe compete atender a população, como é o caso da segurança pública. Porém, conforme observou o dedicado capitão que comandou a reunião, se a comunidade se mobilizar sempre é possível conseguir um pouco mais.

Quanto ao projeto, embora a fraca participação comunitária e as limitações da polícia em termos de pessoal e viaturas, a iniciativa vem contribuindo para reduzir a incidência de furtos e roubos nas residências.

Não é uma boa notícia?

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Uma Cidade Verde de verdade

Depois de passar alguns dias em Curitiba, não tem como não fazer algumas comparações. Bem ao contrário de Cuiabá, a cidade é muito limpa e ordenada. Há canteiros floridos pra todo lado, nas calçadas, no centro das avenidas, nos jardins das casas, formando uma profusão de cores que enfeitam e encantam.

E o serviço de transporte urbano? Os ônibus trafegam novinhos, limpinhos e repletos de inovações, para o conforto dos passageiros que vêm de diferentes classes sociais. Imagine que depois das estações-tubo, dos ônibus articulados e dos biarticulados e ainda dos ligeirinhos, agora é a vez do ligeirão – o maior ônibus do mundo – que mede 28 metros e tem capacidade para 250 passageiros.

A capital paranaense é considerada um modelo em soluções urbanísticas e a maior delas é, de fato, o transporte público, embora a educação e o meio ambiente também lhe garantam fama internacional. Inovações como a Rua 24 horas, uma galeria aberta ao público 24 horas por dia, e os Faróis do Saber, bibliotecas comunitárias existentes em vários bairros que funcionam em apoio às escolas municipais e como pontos de referência cultural e de lazer para a comunidade, bem como a Ópera de Arame, ambientada em uma antiga pedreira, confirmam a característica vanguardista dessa metrópole que é reconhecida como a capital com melhor qualidade de vida do Brasil.

Curitiba é uma benção para os olhos dos turistas que podem se fartar com a beleza de seus parques, como o Bosque do Papa, o Jardim Botânico e o Barigüi, tradicionais pontos de lazer dos curitibanos. No total, a cidade possui 81 milhões de m² de área verde preservada. São 55m² de área verde por habitante, três vezes superior ao índice recomendado pela Organização Mundial de Saúde, de 16m².

Esta, sim, é uma Cidade Verde de verdade.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Bonecas negras

Essa história eu ouvi no rádio um dia desses: o cara, que é negro, queria dar uma boneca negra de presente para a sobrinha e se espantou com a variedade disponível no mercado de brinquedos. Diferente, segundo ele, de alguns anos atrás, quando ele procurou, em vão, uma versão negra do Ken – namorado da Barbie – ou algo semelhante para dar de presente à namorada, para que ela se lembrasse dele enquanto ele estivesse viajando. “Acabei comprando um Saci”, brincou.

O mercado está, de fato, ofertando muitas opções de boneca negra, como a Tre-Lê-Lê, a Nenequinha, a Gargalhada, a Milkinha Petit e até mesmo várias versões da Barbie. Há, inclusive, uma loja em São Paulo, a Preta Pretinha, especializada na fabricação de bonecos negros, como também de outras etnias, uma iniciativa de três irmãs negras que, quando crianças, não se reconheciam nas bonecas loiras e de olhos azuis que enchiam as vitrines das lojas de brinquedos.

Assim como o rapaz do rádio e as irmãs negras, tem mães que, independente da cor da pele dos filhos, desejam ensiná-los desde cedo sobre diferenças, tolerância e respeito e acreditam que é importante essa convivência com bonecos que fogem ao padrão europeu dominante nesse segmento. Um padrão que dita conceitos e escancara o preconceito.

Não sei qual é a sua cor, nem o que você pensa sobre isso e muito menos se compraria uma boneca negra para dar de presente a uma criança, mas compartilho com você um vídeo que “pesquei” na Internet e que me encheu de tristeza:


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Livros, escritores e leitores


Neste fim de semana li A vida sexual da Mulher Feia, da gaúcha Claudia Tajes. Ta estranhando o título? Pois eu também estranhei. Mas, saiba que o livro reflete exatamente o título que tem. E é hilário. Às vezes, um tanto patético, cruel até. O que não é nenhuma surpresa nesses tempos em que se cultua tanto a beleza física.

Falando de literatura, tive o prazer de assistir a uma palestra com o jornalista, escritor e cronista Ignácio de Loyola Brandão. O maravilhoso escritor é também um magnífico orador. E que veia cômica! Virei sua admiradora.

Como parte do programa, participei de uma oficina de leitura, onde ficou evidenciada a presença maciça de pedagogas – ai, esse termo pedagoga carrega um charme, uma elegância, um não sei o quê de sofisticação.

Pois, então, as pedagogas que lá estavam, praticamente todas elas desempenhando o ofício de ensinar, são, a maioria delas, péssimas leitoras. Com uma ou outra exceção, descobriram a necessidade – não o prazer – de ler somente quando chegaram à universidade. É óbvio que seus alunos serão, também, péssimos leitores, afora um ou outro que receba estímulos dos pais ou de algum amigo dos livros.

É lamentável essa falta de interesse pela leitura, que produz levas de estudantes que escrevem absurdamente mal. E que também são pouco criativos. Além de que deixam escapar a oportunidade de embarcar nas deliciosas viagens e aventuras que os livros proporcionam a quem a eles se entrega.

E, voltando à oficina, uma experiência relatada lá me fascinou: a de uma mulher que tomou gosto pela leitura através de sua babá, que, curiosamente, não sabia ler. “A babá me contava histórias e me mostrava os livros onde – dizia – eu poderia descobrir muito mais, o que ela não podia fazer, pois não sabia ler”, contou. Dá para imaginar o tamanho da capacidade inventiva dessa babá, caso soubesse ler?

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O homem da cobra

Há quanto tempo eu não via um “homem da cobra”, aquele artista-vendedor de medicamentos que se apresenta nas praças das cidades e que popularizou a expressão “fala mais que o homem da cobra”. Pois bem, o homem da cobra estava lá, numa barraquinha na feira de domingo, polarizando a atenção das pessoas e prometendo mostrar uma tal cascavel que, embora eu tenha permanecido um tempo por ali, cansei de esperar para ver. Também não confirmei se ele serviu a poção que estava sendo preparada num pilão onde de pouco em pouco ele acrescentava uma pitada de diferentes tipos de ervas, e que prometeu compartilhar gratuitamente com quem quisesse.

Com um cocar na cabeça e se passando por índio – embora de índio ele não tivesse nada mais do que o enfeite no cocuruto – o sujeito falava tanto quanto o homem da cobra e ilustrava sua conversa com figuras estampadas em folhas amareladas e puídas que despertavam a atenção dos passantes. Fotografias e desenhos de partes do corpo humano tomadas de úlceras, para cujos males ele indicava o remédio, povoavam aquelas páginas. Algumas fotografias de índios nus também faziam parte do acervo mostrado, com a indicação de que se tratava de parentes seus. “Esta é minha sobrinha, aquele é meu irmão”, apontava nas fotos desgastadas, atribuindo a boa forma física da “parentela” aos costumes indígenas e ao uso constante das ervas.

Enquanto desfiava um rosário de doenças que podem acometer o ser humano, o homem exibia uma coleção de vidros contendo vermes, lombrigas e outros bichos extraídos, segundo ele, de pessoas doentes. E o povo se acotovelava para ver aquele espetáculo de horror. É assombroso como as pessoas têm prazer diante da visão do que é sinistro.

Bem, como não fiquei para o chá, não vi a cobra. E nem o que esse marketing todo rendeu ao dono da cobra. Quem sabe num outro domingo...

domingo, 17 de outubro de 2010

Pobres mulheres!

Acabei de ler A cidade do sol, de Khaled Hosseini, um romance que tem como palco o Afeganistão. Embora fictícia, a história retrata a realidade de uma nação marcada pela violência. Um país que após se livrar da ocupação russa caiu nas mãos do terrorismo talibã e viu suas colinas verdejantes se cobrirem de sangue e desolação.

Não menos real as agruras vividas pelas protagonistas do amargo romance de Hosseini, num país em que uma mulher pode valer tanto quanto uma cabra e cujas funções básicas se resumem a lavar e cozinhar para o marido, bem como aliviá-lo em suas necessidades sexuais, e procriar.

Prometidas ainda meninas, vendidas ou entregues a troco de dívidas, quiçá de bananas, as pobres mulheres do Afeganistão passam a pertencer aos seus maridos que delas podem dispor da maneira que melhor lhes convier. E tudo isso sob o beneplácito do governo e da religião.

Tal qual na ficção, mulheres são agredidas dentro de casa e fora dela pelos motivos mais banais. Praticamente tudo lhes é proibido; portanto praticamente tudo é motivo de punição.

Para nós, ocidentais, é difícil imaginar uma mulher conviver com tantas restrições. Já pensou se tivéssemos que ver o mundo por detrás de uma burca? E se não pudéssemos estudar, nem trabalhar fora? E se para ir ao shopping, à padaria ou mesmo à mercearia da esquina precisássemos da companhia de um mahram (pai, irmão ou marido)? Provavelmente, muitas de nós nesse imenso universo de mulheres que criam seus filhos sozinhas (ou porque estão divorciadas, ou porque foram abandonadas, ou mesmo porque nunca tiveram quem assumisse a paternidade de seus rebentos) morreríamos, junto com nossos filhos, de fome.

As barbaridades cometidas contra as mulheres no Afeganistão, como de resto em uma série de outros países, estão na contramão do processo de evolução da humanidade. E aqueles homens que as cometem, acobertados por leis covardes e pelo radicalismo religioso ignoram o que é o nosso termômetro do bem e do mal: a consciência. A consciência que nos guia e nos diferencia. Dos animais.