terça-feira, 26 de maio de 2015

Uma paixão e tanto


Eu tenho um amigo que toda vez que ficava um tempo sem notícias minhas, me mandava uma mensagem bem objetiva: “Morreu, Lô?”.
Pois, agora, foi ele quem sumiu do mapa. Sumiu do Facebook, do Whatsapp, do Google... E eu devolvi a pergunta: “Morreu?”.
Não tardou para ele responder. Não morreu, não, o danado. Está vivinho da silva: “Arrumei uma namorada, Lô, e não tenho mais tempo para nada”.
Ainda não conheço todos os detalhes desse romance, mas o pouco que sei já faz dele uma história e tanto: trata-se de um reencontro após 34 anos. Ele está viúvo, ela, divorciada.
Em seu casamento anterior, ele foi muito feliz com sua Amélia. Sim, ela era literalmente uma Amélia, no jeito e também no nome. O mesmo não ocorreu com a namorada, que viveu um relacionamento infeliz do qual somente agora conseguiu se libertar.
Filhos criados, três ou quatro netos, ele – ela não sei – ainda está em atividade como professor, porém sem poupar tempo para se dedicar a esse romance que lhe faz reviver os amores e os ardores da adolescência. Reconhecendo-se apaixonado, ele está tratando de aproveitar essa paixão até a última gota. Por isso, outras atividades foram para o final da fila. As mídias sociais, por exemplo, que ele não tem mais tempo de atualizar. O que merece a minha admiração, numa época em que muitos estão tão preocupados em mostrar para os outros os registros de sua vida amorosa que se esquecem de viver sua própria felicidade.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Vaidade precoce


Dia desses a filha de uma amiga minha, prestes a completar seis anos de idade, me pediu uma boneca de presente. Quase enfartei! Que menina com mais de quatro anos quer ganhar uma boneca? Ainda dentro das fraldas, as meninas já estão desejando celular, tablet, câmera, filmadora, sapato de salto, maquiagem, roupa da moda e, entre outras coisinhas, jogos de computador, principalmente os que envolvem moda, maquiagem e dicas de beleza.
Tanto que encontrei na Internet alguns vídeos em que garotinhas de 6, de 7, de 8 anos ensinam outras garotinhas a se maquiarem, usando inclusive base e rímel, que eu pensava que fossem de uso exclusivo de gente adulta. E elas não fazem isso para ir a uma festa, para participar de um espetáculo ou para um evento de gala, mas principalmente para ir à escola.
Para essas meninas, fazer maquiagem não é uma brincadeira de criança. É a satisfação de uma vaidade a meu ver extremamente precoce. Que começa dentro de casa, sob aplausos e incentivo das próprias mães, orgulhosas da prematuridade de suas “mocinhas”. Com esse aval, as “mocinhas” estão indo muito mais além: marcam hora no salão, esticam os cachinhos com escova progressiva, fazem as unhas e – pasme – depilam as pernas.
Ao contrário dessas mães “antenadas”, não acho isso uma gracinha e não me incomodo nem um pouco de passar por quadrada, por careta ou por qualquer coisa que seja. O fato é que acho um absurdo esse estímulo à erotização infantil, que coloca em risco, inclusive, a vida das próprias garotas, vítimas frequentes de gravidez na adolescência, de distúrbios alimentares como bulimia e anorexia, e de cirurgias plásticas em corpos ainda em desenvolvimento.
Ouvi de um psicólogo que pular a infância é o mesmo que querer ler antes de começar a falar. E a infância é uma fase em que as crianças deveriam estar preocupadas em brincar, de boneca, de bola, de pular corda, de pega-pega, de qualquer coisa, e não em seguir os padrões da moda e se tornar adulta antes da hora. Mesmo que a mídia teime em vender sexualidade 24 horas por dia. E cabe principalmente aos pais impedir que essa ousadia invada sua casa.
Quanto à garotinha lá do início, a filha da minha amiga, quer saber se atendi o desejo dela? É claro que sim. Comprei uma boneca lindona, ao estilo do que ela havia pedido. Só que quatro ou cinco dias depois, ela se saiu com essa: “e um tablet, tia, você pode comprar pra mim?”


sábado, 4 de abril de 2015

Faça mil favor


Pena que uma ferramenta tão legal quanto o Facebook tenha se transformado, com o perdão da palavra, numa me#&a a maior parte do tempo.
Como eu, acho que muita gente já tirou proveito do Face para localizar amigos e parentes distantes ou pessoas com as quais perdeu o contato.
Também acho legal isso de compartilhar ideias, participar de grupos, aderir a campanhas, promover o resgate de valores, enfim, fazer coisas que contribuam para melhorar o mundo em que vivemos.
Agora, tem um tanto de gente que não tem a mínima noção disso e perde o tempo dela e o meu em compartilhar baboseiras, em postar sua rotina nada atraente (Acordei! Vou comer! Vou dormir!), em mostrar como é linda a ilha da fantasia onde vive e em atropelar a língua portuguesa.
Falando nisso, é sobre isso mesmo que eu queria falar, do quanto se escreve errado nas mídias sociais.
Mas eu não quero fazer nenhuma apologia sobre isso. Quero apenas colocar aqui alguns erros que pincei e que não tem como não rir deles:

Manifestando disponibilidade: Que tau domingo?
Desabafando: Faça mil favor!
Esperto: Colocava a máquina no alto matico!
Estimulando: Vai Ontário!
Concordando: Fases bem amiga!
Despedindo-se: Abrasso do tio!
Avaliando: É muita improquezia!
Doente: To com a garganta enflamada!
Amigo do doente: Meloras!

Aliás, será que é pra rir ou pra chorar?

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Ouro de tolo


Tinha um tempo em que dar presente era um ato de amor. Eu me lembro quanto ficávamos emocionados em entregar o presente do Dia dos Pais, um modesto par de meias ou uma caixinha de lenço; e do Dia das Mães, um sabonete ou uma colônia. Depois veio a época de aproveitar essas datas para comprar algo que fosse necessário para o lar. Foi quando minha mãe equipou a cozinha com aparelhos eletrodomésticos. Até a compra da geladeira nova, do fogão, do sofá, coincidia com o Dia das Mães ou com o aniversário delas. Até elas encherem o saco e começarem a exigir umas coisinhas mais para uso pessoal.
No Natal, as crianças cujos pais podiam comprar, recebiam um presentinho, uma boneca, um carrinho, uma bola. E com um brinde agregado: a fantasia de que por trás do presente tinha a bondade de um velhinho conhecido como Papai Noel.
Hoje, dar presente virou obrigação!
O comércio faz um marketing tão pesado sobre as datas comemorativas que ou você compra o presente, ou sua consciência fica doendo pelo resto do ano. São doses cavalares de apelo à sensibilidade do consumidor.
Os dias de dar presente também se multiplicaram: Natal, Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia dos Namorados, Dia das Crianças, Dia da Secretária, Dia da Mulher, Dia da Avó, Dia da Amizade. Aposto que você nem sabia que já tem o Dia da Sogra, 28 de abril, e o Dia do Sexo, 6 de setembro! Resumindo, o comércio obedece a esta máxima: há sempre uma festa no meio do caminho, e, com ela, a oportunidade de vender um presentinho.
Só para reforçar a prevalência dos interesses comerciais em torno das datas comemorativas, vou contar uma historinha: em grande parte do mundo, o Dia dos Namorados é comemorado em 14 de fevereiro (Valentine’s Day), dia de São Valentin, um santo devotado às causas do amor. No Brasil, a partir de uma campanha para esquentar as vendas de junho, então um mês fraco para o comércio, ficou convencionada a data de 12 de junho, véspera do dia de Santo Antonio, o popular santo casamenteiro, para homenagear os namorados.   
Eu adoro dar presente! E principalmente quando tenho oportunidade de surpreender ou satisfazer um capricho. É muito gratificante!
Porém, tenho observado que essa obrigatoriedade está deixando de ser um ato de amor: “Droga, ainda falta comprar o presente da Gisele!”; “O que vou comprar para o Gabriel, aquele gordo sem noção?”; “Essa Rita é uma chata, mas se eu não comprar nada todo mundo vai falar”; “Que azar, tirei o Jonas no Amigo Oculto e eu nem gosto desse cara!”. E mesmo resmungando as pessoas vão esvaziando as prateleiras das lojas, ora pagando, ora empurrando as contas para depois do carnaval, para depois do Natal, para o ano que vem, enfim. E satisfazendo a fome voraz do consumismo desenfreado!


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

No busão


Hoje, depois de muito tempo – digamos uns 15 anos – me enchi de coragem e tomei um ônibus do transporte coletivo. Melhor dizendo, e usando a linguagem coloquial, tomei o busão.
É claro que eu fiz isso no meio da tarde, em horário em que os ônibus circulam mais leves, com pouca lotação, e acabei até me divertindo.
Mal entrando no veículo dei de cara com gente conhecida. Lá estavam, sorrindo, logo atrás da roleta, meus amigos Fábio e Maninha, e a viagem já virou festa. A despeito dos solavancos que por pouco não me derrubaram no corredor. Mão firme no corrimão, me entretive na conversa e nem vi o tempo passar e por pouco não perdi o ponto de desembarque.
Na volta, mais um encontro inesperado, com a amiga Maria, no terminal do CPA. Foi ela quem me indicou onde embarcar, pois, embora tenha tentado, não consegui decifrar as placas da precária sinalização. Se é que não fiquei atrapalhada por conta do cheiro insuportável de urina que infesta aquele local.
Embora fora do horário de pico, não tive como não me chocar com a falta de educação de motoristas e usuários. Respeito é uma prática pouco utilizada no transporte coletivo. E faz uma falta medonha.
Do pouco que vi, posso calcular quanto desapontamento, raiva e frustração passam os usuários que lidam com a rotina do transporte coletivo, submetendo-se a empurrões, xingamentos, mau humor, desconforto, violência física e mental.
Andar de ônibus, pelo jeito, é para quem tem coragem, perseverança e, obviamente, não tem outro meio de locomoção. E para gente como eu que escolhe o melhor horário para circular e tem interesse por novas histórias para contar.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Pague ou morra... de raiva!


Por conta de uma transferência de titularidade, não recebi a fatura e, por um descuido, não fiz o pagamento da conta da Sky. Sem medo de cometer exagero, me senti caçada feito um animal, ou mesmo um bandido que cometeu uma atrocidade. Em menos de 20 minutos recebi cobrança por e-mail, por telefone, por mensagem no celular e pela tela da televisão.
Fiquei com medo de sair à sacada e me deparar com um balão sobrevoando o prédio onde moro com a mensagem padrão: “Senhora Loreci, não identificamos o pagamento da sua fatura. Regularize seu pagamento sob pena de perder o sinal”.
Na porta da rua, recuei. – E se a polícia federal está me aguardando do lado de fora do portão? – pensei e minha imaginação até construiu uma barricada de artilharia pesada do outro lado da rua. A essas alturas eu já estava em pânico e com medo até de sair do lugar. Mas reagi, respirei fundo e providenciei o pagamento imediatamente.
Parece brincadeira, mas não é. Na verdade, é muito sério isso. É uma forma tão intimidadora de cobrança que dá até raiva. Aliás, acho que a gente paga, mesmo, é de raiva.
Essa história me remeteu a uma outra, quando tive a infeliz ideia de financiar um veículo para outra pessoa. Junto com o financiamento, assumi uma parcela extra de raiva todo mês. O indivíduo não pagava a fatura e quem era cobrada era eu. Passava a maior parte do mês recebendo ligações em casa, no trabalho, na casa dos outros, quando não, sendo incluída no cadastro do SPC (Serviço de Proteção ao Crédito).
Essa situação vexatória se prolongou por vários meses, até o veículo ser quitado, porque a pessoa em questão não conseguia transferi-lo para seu nome, por motivos óbvios.
E chego à conclusão agora que provavelmente é para esse tipo de mau pagador que a estratégia de cobrança da Sky é dirigida, embora eu duvide de sua eficácia, porque ela intimida gente como eu, que paga suas contas em dia. Caloteiros do tipo desse meu amigo não se amedrontam nem se alvoroçam quando cobrados. No máximo, caso se sintam constrangidos, processam os autores da cobrança e reclamam danos morais.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Que bafão!


... e, então, aconteceu isso: quando olhei para baixo vi que estava com um sapato de cada par.
– Pelo menos são da mesma cor? – perguntou minha filha quando contei pelo WhatsApp.
– Sim – respondi – e os dois têm um laço em cima, embora um deles seja dourado.
Quer dizer: perfeitamente visível a diferença. Qualquer um que olhasse para meus pés perceberia a diferença.
Sem ter como consertar o problema, passei o resto da manhã e um pedaço da tarde com os sapatos trocados.
Sempre que podia, virava discretamente um pé ou o outro, até o ponto em que acabei me esquecendo totalmente do fato.
Não sei se alguém percebeu e se percebeu não me deixou perceber que havia percebido. Mas fiquei imaginando o que pensaria uma pessoa que visse a cena:
“Olha só aquela próxima, já está até calçando sapato trocado!”
“Coitada! Vai ver estragou um dos sapatos!”
“Como é que deixam sair de casa assim?”
“Será que ela quer chamar atenção?”
“Que perigo! Uma hora dessas pode sair pelada!”
“Que bafão! Eu morreria de vergonha!”
Pois eu não morri de vergonha.
Mas quase morri de rir. De mim mesma!